JORNAL DE JUNDIAÍ
Santa Casa de Itatiba tem apartamentos até para o SUS; Santa Casa de Vinhedo tem 102 leitos no total
"A minha mulher tá com uma pedra na vesícula e eu tô precisando de ajuda!", dizia um homem já dos seus 60 anos, colarinho puído, calça pela canela, de tão curta. Do outro lado, um homem elegante, roupas e modos impecáveis mandava a resposta: ´Primo, é incrível como nós somos tão parecidos. A minha mulher também está com um problema desses. Eu comprei uma pedra nova para ela, já alugamos o salão do Itanhangá Golf Club - e o diacho da pedra está retida na alfândega. Eu também não sei o que fazer. Você não conhece ninguém que possa me ajudar, não?´"
O diálogo era trocado por dois dos grandes atores da tevê brasileira, em um dos quadros mais esperados, toda semana, pelos expectadores do programa ´Balança, mas não cai´. Cerca de 50 anos depois, o Primo Rico (que era interpretado por Paulo Gracindo) e o Primo Pobre (personagem de Brandão Filho; ambos já falecidos), no entanto, estão mais vivos do que nunca - mas na realidade de uma grande maioria dos hospitais do País.
A conclusão é fácil: seria cômico se não fosse trágico. A penúria da maioria das Santas Casas chega a dar dó - mas quem sofre, de verdade, é a população que não consegue pagar um plano de saúde e fica na dependência do atendimento prestado pelo SUS. Fundadas como Irmandades, em Portugal, as Santas Casas de Misericórdia se espalharam pelo Brasil.
Quinhentos anos mais tarde, como que numa espécie de maldição, somente um pequeno percentual delas se mantém com as próprias pernas. O mais comum são as situações de administração amadora, gestão ineficaz e trabalho de gente que jamais havia pisado em um hospital antes.
Profissional ou amador? - Na Região, primos ricos e pobres convivem quase que lado a lado - assim como os impagáveis Paulo Gracindo e Brandão Filho. E a única conclusão que se pode retirar, dos exemplos ouvidos pela reportagem, é: não há uma receita para uma administração de excelência.
Se o hospital for gerido por um profissional experiente na área, talvez seja melhor (caso da Santa Casa de Vinhedo, cujo superintendente é o administrador de empresas Edson Aires Rodrigues). Mas se a Santa Casa tiver à frente um comerciante ao melhor estilo ´matuto´, que não deixa ninguém lhe passar a perna, melhor. Aqui, estamos falando do provedor da Santa Casa de Itatiba, Benedito Netto.
Os dois hospitais são verdadeiros centros de excelência da região. Bem ao contrário, por exemplo, da Santa Casa de Cabreúva - que convive com dificuldades no seu dia a dia e, com um orçamento modesto (dependendo exclusivamente das verbas provenientes de repasses do SUS e da Prefeitura local), não consegue comprar equipamentos, tem dificuldade para manter equipe médica e se limita a manter os serviços de emergência e maternidade (apenas em casos em que a gravidez não é de risco).
Limitações - A situação é mais que conhecida pela população. O próprio provedor da Santa Casa cabreuvana, Cláudio Gastaldo, admite as limitações. E, para ficar bem claro as diferenças entre primos ricos e pobres, anote os orçamentos de cada uma das Irmandades: a Santa Casa de Cabreúva convive com R$ 225 mil mensais. Este é o valor que a ´prima´ rica de Itatiba gastava, até poucos meses atrás, somente na compra de oxigênio.
"Vi que estava caro. Pagávamos R$ 3,98 por metro cúbico. Renegociei e o valor caiu para R$ 1", afirma Benedito Netto, dando uma receita fácil de ser seguida. "Até o telefone que eu uso, para ligações particulares, dentro do hospital, eu faço questão de pagar. Eu me recuso sequer a medir pressão no hospital, porque acho que seria uma forma de burlar o dinheiro do contribuinte e de todos os parceiros (e são muitos) que ajudam a manter a nossa Santa Casa", define Netto.
Estilo caipira - O orçamento da Santa Casa de Itatiba está em R$ 3 milhões por mês. Curioso é que o "estilo de administrar" de Netto passa bem longe daquele que preconiza o superintendente da Santa Casa de Vinhedo. Edson Aires Rodrigues é adepto da gestão profissional. "A tradição de filantropia está superada. O nosso modelo é diferente. Aqui, fazemos uma gestão que não se prende ao que recebemos de subvenções. Vamos em busca de planos particulares, fazemos acordos, estamos lançando, inclusive, um plano próprio na próxima semana", informa Rodrigues.
Como parte deste planejamento, a Santa Casa de Vinhedo conta com aparelhos que poucas podem exibir e disponibilizar aos pacientes. Ali mesmo são feitos exames de densitometria óssea e mamografia, entre diversos outros procedimentos. "Quando assumi, fiquei sem graça porque não tinha R$ 84 para pagar um fornecedor", lembra Rodrigues. Vinte e nove meses depois, a Santa Casa vinhedense passou do déficit de R$ 3 mil/mês para a condição de superávit.
"Nós tínhamos uma média de cinco reclamações, por mês, que chegavam ao Procon. Hoje, temos uma ouvidoria, para trazer até nós os casos mais graves e resolver tudo rapidamente", prossegue Rodrigues. Benedito Netto não tem ouvidoria - porque prefere um estilo diferente. Comerciante do ramo de ferragens, estabelecido há mais de 40 anos na cidade, é um homem de credibilidade.
Já foi provedor em outras épocas, saiu depois de discordar da posição do prefeito de então, voltou anos depois. "Estou aqui há 2.316 dias. Quando assumi, a comida que era servida aos pacientes e funcionários estava estragada, e nós tínhamos dezenas de processos trabalhistas. Foi fundamental negociar com os credores e também com os convênios para equilibar as contas".
Hoje, a Santa Casa de Itatiba atende quase 100 mil habitantes, através do Sistema Único de Saúde. O hospital tem, ainda, pacientes que vêm de 32 convênios. "Honestidade, humanidade, humildade são expressões que fazem com que esta instituição tenha chegado até aqui. Assim como eu sou com as pessoas, eu exijo que as pessoas sejam comigo", diz Benedito Netto.
No São Vicente, as sobras - No meio deste turbilhão, acaba ´sobrando´ para o Hospital São Vicente que recebe cerca de 1.500 pacientes por dia de toda a Região. Os maiores ´clientes´ de fora de Jundiaí são Várzea Paulista (10%), Campo Limpo (4%) e, justamente, Cabreúva (2%).
CARLOS SANTIAGO
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