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22/6/2008

O Cadeião visto de dentro


COL: EMERSON LEITE Nosso repórter acompanha visita à Cadeia Pública feita por vereadores e um representante da OAB

Nosso repórter acompanha visita à Cadeia Pública feita por vereadores e um representante da OAB

Do lado de fora, os portões de aço e o brasão da Polícia Civil estampado em larga escala dão a impressão de se tratar de um lugar intransponível. Uma fortaleza. Só do lado de dentro, porém, é possível ter a real noção de que se trata de um castelo de cartas. Paredes remendadas, encanamento e fiação elétrica à mostra, infiltrações, um corredor escuro, grades, telas, trancas e cadeados.

Esse é o mundo da Cadeia Pública de Jundiaí, em que vivem 340 homens acusados de algum tipo de crime contra a sociedade e outros 30 funcionários - entre carcereiros, investigadores e a direção da unidade. Nessa sexta-feira, infiltrado entre vereadores que conheceriam de perto a realidade do cadeião do Anhangabaú, pensei em como seria entrar ali e não poder mais sair.

Dispostos a verificar a situação dos detentos após denúncias de surto de sarna e tuberculose - que rendeu uma ação civil pública e uma liminar da Vara da Fazenda Pública, exigindo a desinfecção do prédio - integrantes da Comissão Permanente de Segurança Pública da Câmara de Vereadores pediram ao diretor da cadeia, delegado Fernando Iwanaga, para conversar com os encarcerados.

O pedido foi aceito e, na hora marcada, lá estavam os parlamentares Adilson Rosa (PR), presidente da comissão, Ana Tonelli (PMDB), Gerson Sartori (PT) e José Galvão Braga Campos, o Tico (PSDB). Dentro da unidade, o presidente da Comissão de Assuntos Penais da OAB Jundiaí, Paulo André Ferreira Alves, também aguardava para acompanhar a ´visita´.

Pensei em me identificar como jornalista e explicar que estava ali para ter a possibilidade, caso houvesse a autorização, de também conhecer a real situação da unidade. Como estava de terno e gravata, ao lado dos vereadores e assessores, o delegado não se preocupou em perguntar quem eu era. Fiz-me de desentendido e, quando vi, já estava "do outro lado do muro", como dizem os presos.

Antes de alcançarmos o pátio interno, contudo, o diretor da cadeia passou algumas orientações. "Não cheguem próximos à grade para conversar com os detentos. Já ´batemos grade´ (confirmaram se nenhuma delas tinha sido cerrada pelos encarcerados), mas serve como medida de segurança."

Clima pesado - Enquanto Iwanaga falava, era difícil não prestar atenção nos policiais entrando e saindo pela porta que dá acesso aos xadrezes. Todos de preto, com armas de grosso calibre e cara de poucos amigos. Também, pudera. O ambiente na Cadeia Pública é carregado e se mistura ao clima de tensão que o cerca diariamente. No corredor que dá acesso às celas, aguardamos por alguns minutos até a liberação do delegado. Estreito, com apenas um bico de luz, fez lembrar as antigas masmorras mostradas em filmes de época.

Construído na década de 1960, o prédio tem os xadrezes distribuídos em ´u´ e já passou por incontáveis reformas - fruto das tentativas de fuga por túneis e rebeliões. As lembranças das tragédias registradas naquele local são interrompidas pelo alerta de um dos carcereiros : "Não encostem nas paredes. Além da cal que foi passada, os presos às vezes as sujam de sangue."

Chegou o momento. Quase 300 homens - a maioria com idades entre 18 e 25 anos - que vivem amontoados em 12 celas ali, parados, observando a chegada dos vereadores e do representante da OAB. Apenas uma grade separava quem cumpre pena daqueles que, de alguma forma, buscavam auxiliá-los. A conversa começou tímida por parte dos detentos.

Perguntados sobre as condições que eram oferecidas no cadeião, eis que surge um rapaz franzino, cabeça raspada e olhar fixo. Ele transformou-se no porta-voz dos presos. "Não temos remédios e sempre que alguém precisa ir ao hospital é a maior burocracia", lançou. "Falta coberta e colchão para todo mundo e temos de revezar para dormir por causa da superlotação (em cada xadrez, existem pelo menos 25 presos em um espaço destinado a 10). Tem muita gente aqui com ´tiriça´ (coceira) e ninguém faz nada. E, quando chove, temos de agüentar goteira na cara."

As reclamações também tiveram relação com as visitas de familiares - realizadas sempre às quintas-feiras. "Ficou deselegante esse negócio dos cachorros comerem a nossa comida. As visitas estão revoltadas. Estão preparando um negócio de fora para dentro, com denúncia e tudo comprovado. Porque o que a gente fala aqui, tem como provar."

O rapaz prosseguiu com as reclamações enquanto os vereadores e o advogado somente balançavam a cabeça ou tentavam disfarçar o nervosismo, esfregando as mãos. Os policiais, de arma em punho, e o diretor da cadeia não contestaram nenhuma reclamação enquanto o detento falava. "O que a gente quer é só diálogo, um pouco de atenção. Só que com ele, não tem conversa", completou o porta-voz, apontando para Iwanaga. "Só não teve tumulto aqui porque não é o que a gente quer."

Aplausos - Outros presos, motivados pelo discurso do rapaz franzino, passaram a dizer que havia "muita opressão" naquela unidade. "Nem tênis eles deixam a gente usar. Isso é só para alguns, aqui", lembrou outro. As vozes vinham do fundo do pátio, o que impossibilitou conhecer os autores. O porta-voz, então, finalizou a audiência. "Hoje eu estou aqui, amanhã já não sei mais porque, aqui, é assim: a voz da cadeia sempre é calada. Com certeza vão me transferir, mas os senhores podem confirmar tudo isso depois com os meus amigos que vão ficar aqui." Depois das despedidas dos visitantes, a população carcerária gritou e aplaudiu o preso franzino.

A comitiva, então, seguiu para o chamado ´seguro´, ala formada principalmente por acusados de estupro e delatores - duas categorias completamente repudiadas pelas leis que regem a conduta dos próprios encarcerados nas penitenciárias.Eram pouco mais de 60 homens. O discurso, desta vez, foi diferente. "Não temos do que reclamar em relação a remédios, não. Sempre que precisamos, eles trazem", destacou um rapaz de camiseta branca, aparentando 35 anos. "Nosso único problema é que faltam mantas e colchões, além dos chuveiros que estão queimados. Com esse frio, tomando banho gelado, tá todo mundo pegando gripe."

As condições destes presos, aliás, melhoraram muito. Em março de 2004, o JJ Regional denunciou que os detentos do ´seguro´ precisavam de ventiladores para poder respirar. A ala dos ´indesejados´ na cadeia de Jundiaí era, na verdade, um corredor sem qualquer tipo de entrada de ar que comportava 36 homens onde só deveriam caber 12. Na época, a Polícia Civil justificou o fechamento de qualquer tipo de acesso à ala como uma medida de segurança - os outros presos jogavam água fervente pela grade que antes separava os dois mundos e, com o isolamento, isso cessou. Agora, o espaço conta até com um pátio para o ´banho de sol´ - embora eles ainda continuem se espremendo nos xadrezes.

Por fim, Fernando Iwanaga comentou que os presos considerados de alta periculosidade, principalmente os que têm ligação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), ficavam confinados em outra área. Ao perguntar se os visitantes gostariam de conhecê-la, a negativa foi imediata sob alegação de que "não havia necessidade".


EMERSON LEITE



Esta notícia foi atualizada em 21/6/2008 às 23:43

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